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 TEMA: TEXTO DO 1º e 2º CAPÍTULOS DO LIVRO "1932 - OS DEUSES ESTAVAM COM SEDE"

- de autoria de Antonio de Andrade

 

Prezado/a internauta 

 

Apresento aqui, para você conhecer o estilo e a história do livro, o texto do 1º e do 2º Capítulos, com ilustrações, da história que criei para o livro "1932 Os deuses estavam com sede", cuja primeira edição com 358 páginas foi publicada em 1997 (Registrado na Biblioteca Nacional, Escritório de Direitos Autorais, registro nº 123.156, ISBN da 1ª publicação 85-86633-03-8).  Como autor e detentor dos Direitos Autorais deste livro, dentro do sistema "Creative Commons" (CC), autorizo, como licença autoral, o acesso livre sem fins comerciais ao texto dos 1º e do 2º Capítulos do meu livro, para conhecimento da obra. Os meus direitos como autor são reservados exclusivamente para uso comercial.

As fotografias de fatos históricos são meios das pessoas verem uma realidade que ocorreu e "sentir" os acontecimentos. A utilização das fotos aqui publicadas de fatos históricos, desenhos ou mapas, é um modo de preservar parte da história para a posteridade. Ao apresentar este novo formato do livro, condensado, mas com muito mais fotos e ilustrações, estou reforçando a importância do caráter documental das imagens, reconstruindo assim, um momento importante da história do Brasil.

A história completa desse livro cuja 1ª edição está esgotada pode ser encontrada no site www.editora-opcao.com.br vendida em CD com o texto e com uma riqueza em fotografias e ilustrações (mais de 150), muitas das fotos inéditas e inclusive a cores. Ou veja mais pelos links:  www.editora-opcao.com.br/artigtema1932RevolucaoConstit.htm    ou www.editora-opcao.com.br/deuse.htm 

Este livro no formato impresso, está com a edição esgotada.

 

No formato E-Book é encontrado na Amazon pelo link direto http://migre.me/vLrH8

 

#romancehistórico  #Ficção #militar #politica #1932 #Getuliovargas

   

Atenciosamente,
Antonio de Andrade

 ... Aguarde uns minutos a entrada do texto do livro com as fotos e ilustrações...

 

        Os trabalhos artísticos, colorindo as fotos de 1932 que em seus originais eram em preto e branco, foram feitos pelo design norte-americano  GREGORY  ANTHONY GALLO,  que residiu em Lorena, SP por 2 anos onde tinha um estúdio chamado "Red Man Studios" e reside atualmente em Nova York, Estados Unidos, sua cidade natal. Os direitos da utilização, desses trabalhos artísticos feitos com as fotos, foram adquiridos pela Editora Opção (Antonio de Andrade Editora ME).

 

        Os desenhos, a bico de pena, das cidades históricas do Vale do Paraíba, foram feitos pelo artista TOM MAIA (JOSÉ CARLOS FERREIRA MAIA, Promotor aposentado no Estado de São Paulo), radicado em  Guaratinguetá, SP, a quem agradeço pela gentileza de autorizar a sua utilização neste texto sobre 1932.      

 

              Em vez de eu "criar" 6 irmãos-personagens, dentre os outros personagens criados na história que ira ler,  criando certas características desses personagens, baseei-me nas características de meus 6 sobrinhos, filhos de minha irmã mais velha, Delza de Andrade, e agradeço a eles poder usar seus primeiros nomes nos personagens da história (Robson, Raymundo, Rogério, Reinaldo, Rodrigo e Raul Pacheco de Morais). Na história coloquei inclusive uma foto de quando eles tinham a idade dos personagens do livro. É claro que ao utilizar os nomes deles também estou fazendo uma homenagem a esses sobrinhos que vi crescerem nos anos de minha juventude... 

 

             E  muitos dos nomes que dei a personagens desta história, foi também um modo de homenagear pessoas de conheci ao longo de minha vida... Faço votos que as pessoas fiquem felizes com essa homenagem... E como esta é uma história de ficção, ambientada nos acontecimentos de 1932, qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência. Com personagens fictícios interagindo com fatos históricos reais, a história fica mais interessante para ser lida. Assim, aproveite esse novo jeito de contar a história...

 

Apresentação

 

 

      Cresci ouvindo o meu pai conversar com seus amigos (e minha mãe me explicando o que eu perguntava), nas tardes de fins de semana, sobre a Revolução de 1932, na qual ele  lutou como padioleiro, carregando feridos, levando-os  do front para a retaguarda. E há muito tempo procurei anotar  as histórias ouvidas de ex-combatentes, e os  relatos  e fatos pesquisados em livros e jornais da época, sobre esse movimento revolucionário feito pelos paulistas ¾ uma guerra civil , o maior conflito militar do Brasil neste século, iniciado a 9 de julho e encerrado três meses depois, a 2 de outubro de 1932. 

            A história da Revolução Constitucionalista de 1932 é uma história que todos os brasileiros tem que conhecer melhor  pois deixa grandes lições de idealismo e coragem,  como é o caso, dentre tantos outros, do lavrador  Paulo Virgílio,  da cidade de Cunha, S.P.,  que foi preso e torturado  pelos fuzileiros navais que atacaram a cidade, obrigado a cavar a própria sepultura  e, perguntado pela última vez sobre informações das tropas paulistas (que ele, sendo lavrador, não sabia...) respondeu com bravura: ¾ São Paulo Vence! ¾   Foi morto com 18 tiros nas costas.  Atualmente,  o  bravo paulista está homenageado,  com seu nome  dado  à rodovia  que liga a cidade de Cunha à Guaratinguetá  e por uma estátua,  existente em Cunha.

             A história aqui contada é sobre uma parte dessa Revolução,  a frente de combates do Setor Norte ou Frente Norte, no Vale do Paraíba, vale entre as cidades de São Paulo e o Rio de Janeiro,  região norte do vale  onde nasci e onde resido, englobando as cidades de Lorena, Guaratinguetá, Cunha, Piquete,  Cachoeira Paulista, Cruzeiro, Silveiras, Areias, S.José  do Barreiro e Bananal. E, além de falar da Revolução,  apresentar alguns fatos  de algumas dessas cidades  que floresceram  na época  do café e que muito influenciaram  a minha juventude.

                                                  

 

            São Paulo era um Estado humilhado pelo governo ditatorial de Getulio Vargas, imposto ao país pela Revolução que ele comandou e venceu em 1930 contra o governo, legalmente constituído, de  Washington Luiz.  São Paulo havia apoiado Getulio contra  Washington Luiz, mas estava  descontente  e muito, com as ações de Getulio Vargas que agia mais pela força,  sem democracia, sem Congresso e com as Leis sendo feitas por ele e seus ministros. Getulio era chefe de um Governo Provisório até serem realizadas eleições e elaborada uma nova Constituição, mas suas ações não demonstravam ir para esses objetivos.  Não havia ainda, depois de dois anos no poder, convocado as eleições para a Assembleia Constituinte e as eleições para presidente e governos estaduais. Getulio impunha interventores militares nos governos estaduais, como  era o caso dos tenentes interventores João Alberto e Miguel Costa em São Paulo.  E o anseio do povo, em especial dos políticos, era um civil e paulista  para governar São Paulo.  O descontentamento era tão grande que fez unir todas as classes ¾ desde os patrões, os operários, os partidos políticos, a classe média, os industriais e  também, todos os grupos de ideias, mesmo as mais divergentes, como os reacionários, os conservadores, os separatistas, os federalistas, etc.  Todos se uniram desejando trazer de volta certos valores como liberdade e democracia representados nas bandeiras: eleições para presidente e governadores, e uma nova Constituição para o país.  Devido a essas bandeiras, a revolução foi chamada de Constitucionalista.  

            A conspiração para a explosão do movimento revolucionário já estava há muito iniciada quando Getulio Vargas - conhecedor dos planos paulistas - convocou as eleições para o ano de 1933 e nomeou uma Comissão para elaborar o anteprojeto da nova Constituição.  Os paulistas não acharam isso suficiente. A insatisfação já era demais com Getulio Vargas. 

             E São Paulo fez a revolução sozinho, lutando  sozinho contra  todo o país. Cumpriu bravamente o seu dever. Nas palavras do Comunicado de 2 de outubro de 1932, quando São Paulo assinou a rendição, comunicado assinado por Pedro de Toledo, governador de São Paulo e outros oito membros do Governo Provisório:

                 "AO POVO DE SÃO PAULO

 ... Cessa destarte, a vida do Governo Provisório Constitucionalista, aclamado  pelo povo  paulista, pelo Exército Nacional e pela Força Pública e hoje,  por  esta deposto.

     Fica encerrada, nesta faixa do território brasileiro, a campanha militar  pela restauração do regime legal.

     Deu São Paulo tudo o que podia dar ao Brasil. Tudo empenhou em prol de sua reorganização político-administrativa.  E disso não se arrependerá. O seu governo, instituído pelo povo paulista, com o apoio das  Forças  Armadas,  encerra  o seu ciclo histórico. Antes,  porém,  que  se  lhe  extinga  a  vigência,  afirma  que  CUMPRIU O SEU DEVER!

      TUDO POR  SÃO PAULO!

     TUDO PELO BRASIL! " (Hernani Donato, A revolução de 32, pp. 168)

           

Esta é uma história  de ficção dentro da história da Revolução Constitucionalista de 1932,  misturada  aos  fatos reais  contados por ex-combatentes e existentes  em livros sobre  a Revolução,  fontes citadas  no desenrolar da história. Contar  um pouco  da Revolução de 1932, apresentando fatos reais e históricos,  junto com a história criada,  é um  modo de homenagear a memória de meu pai Ten. Firmo de Andrade Júnior que nela lutou e por isso,  recebeu em 22/11/1970  a Medalha da Constituição outorgada pela Assembleia Legislativa de São Paulo. 

          

 E homenagear, também, os 135 mil soldados e voluntários paulistas de 1932 que com bravura lutaram nas trincheiras pelo Vale do Paraíba e outras fronteiras de São Paulo, nos morros, nos  túneis e nos vales. E  em especial, tentar resgatar essa parte da história para as novas gerações que raramente, ou nunca, ouviram falar dos heróis paulistas de 1932 e dos personagens  dessa epopeia. As novas gerações, atualmente, sem perceberem ou terem consciência, convivem com personagens dessa Revolução, apesar de muitos anos já terem se passado:  qual é a cidade que não possui ruas, praças ou avenidas com  denominações de datas, como 9 de julho, 23 de maio  ou de nomes, como Pedro de Toledo, Euclydes Figueiredo, M.M.D.C.,  ou até mesmo Osvaldo Aranha, Getulio Vargas e outros?

             E finalmente, prestar  uma  homenagem  póstuma  aos 830 paulistas que tombaram mortalmente  dando a sua vida e o seu sangue, pelos ideais democráticos. 

            E foi tanto sangue derramado nos combates  que um comandante de tropa, após um sangrento combate no Vale do Paraíba chegou a dizer:

      Os deuses estavam com sede...  de sangue.

                                                                  Antonio  de Andrade

 

Capítulo  1

      Em  frente ao  Restaurante  Pissanga, na Rua Alegre nº 112,  rua entre o Largo Imperial e a  Igreja Matriz de Lorena, está  estacionado  um carro Chevrolet 124, preto. A capota permanece  fechada, apesar do sol não estar forte nessa  manhã de verão de 1932, no meio do Vale do Paraíba, vale que interliga as cidades de São Paulo e o Rio de Janeiro.

            Na sala de refeições, com dez  mesas cobertas por toalhas de um xadrez vermelho e branco, somente duas pessoas almoçam: dois jovens senhores, beirando os trinta anos.  O relógio de parede com números romanos e pêndulo dourado, em seu tic-tac constante, marca apenas onze horas da manhã. Para quem tinha saído de madrugada  de São Paulo, onze horas já é uma boa hora para almoçar.  No lado oposto à porta que dá  para a cozinha do restaurante, os dois jovens senhores conversam baixinho, enquanto comem apressados pedaços de polenta frita, junto ao tradicional arroz com feijão, farinha torrada e pedaços de traíra frita, ¾  pescada hoje de manhã no rio Paraíba ¾  segundo as palavras do dono do restaurante, Sr. Pissanga, um senhor alto, de voz mansa e um marcante sorriso e cordialidade.

            O sabor da comida não os afeta.  Seus pensamentos estão longe, lembrando da missão secreta que receberam há dois  dias atrás e do conteúdo do envelope, da maleta de couro cheia de dinheiro e das quatro caixas de metal que estão carregando no porta-malas do Chevrolet 124,  com  40 barras de ouro de meio quilo... 

      O palacete da Rua Sergipe nº 37, na capital paulista, parece  deserto às 10 horas da manhã de 13 de Janeiro de 1932. Quem passasse pela frente e olhasse para ele veria, através de suas grades artisticamente trabalhadas, o seu enorme  jardim e um velho jardineiro italiano, o seu Carlos, com seus longos bigodes brancos torcidos nas pontas, viradas para cima, cuidando das plantas e da grama muito bem aparada.  E, da frente, não poderia enxergar os muitos Chevrolet e Ford estacionados ao fundo, atrás do palacete. Pelo número de  automóveis, nove pessoas estão lá dentro...

            ¾  ...essa situação criada pelo Getulio só tende a piorar e nós não iremos poder ficar às margens dos acontecimentos...

            ¾ O Antunes tem toda razão ¾ corta  abruptamente um dos presentes, o velho Dinardi, um dos industriais paulistas, dono de várias empresas, e continua:  ¾  estou com ele e acredito que todos aqui  presentes.  Nós temos indústrias nesta cidade. Nossos interesses estão aqui em terras paulistas. Do jeito que as coisas estão, com essas greves que não param e com a  situação econômica do país, logo logo seremos afetados. E temos que defender o que é nosso...

            Em volta da grande mesa de mogno escuro, sentados nas cadeiras forradas de palhinha entrelaçadas nos assentos e nos encostos, de espaldar alto, nove senhores  debatem e discutem. A fina flor dos donos das  indústrias  paulistas está ali. Antunes, o mais velho deles e, por isso, mais respeitado em suas opiniões, saboreava o sabor do cigarro Yolanda, enquanto os seus olhos pousavam no desenho pintado do corpo nu da modelo Yolanda D'Alencar. Parecia extasiado ao contemplar o corpo nu da modelo no  maço de cigarros, mas seus olhos refletem a sua satisfação do final do debate que se aproxima e o atingimento de seus objetivos. Ainda soam nos ouvidos dos presentes as últimas palavras do velho Dinardi: ¾  e temos que defender o que é nosso ¾  quando Antunes levanta-se enquanto  larga o maço de cigarros que segurava com a mão esquerda, com a direita tira  o cigarro da boca, e após pigarrear  fala em tom sério:

            ¾ Senhores, qualquer um de nós pode concluir que o Getulio Vargas vai querer se perpetuar no poder e abafar São Paulo. A revolução que ele venceu em 1930, só venceu porque teve o apoio dos tenentes.  Sabemos todos que o Getulio não tinha poder próprio, mas agora quer ter poder, cada dia mais. E ele sabe que aqui em São Paulo há muito poder em  nossas mãos, nas mãos dos nossos amigos fazendeiros de café e nos  políticos. E, não há dúvida  que ele quer acabar com todos nós, amarrar nossas mãos e pés.   E,  além  de São Paulo, Getulio vai querer pôr sob seus pés nossos amigos que tem poder no Rio Grande do Sul e em Minas. Nós não podemos deixar isso acontecer!  E o Getulio não vai ceder um pé  se  não  for  pela  força!   Conversar com ele é perder tempo! É claro que nós todos -  e os que comungam nossas ideias e valores - iremos ajudar a mudar isso que está aí,  apoiando nossos aliados políticos dos vários partidos, para que consigam que o Getulio marque logo a convocação das eleições para a Assembleia Constituinte e, também, as eleições para os governos estaduais. Nós não podemos continuar aceitando esse regime de exceção, sem Congresso e o Getulio e seus ministros fazendo quantas leis eles querem. E não podemos mais aceitar esses interventores impostos pelo Getulio, no lugar dos governadores. Chega de ter esses tenentes que o apoiaram em 30 como nossos governadores...  Senhores, vai chegar o dia  do basta!...

            Antunes, antes de continuar, olha fixamente para cada um dos oito participantes da mesa para sentir o efeito de suas palavras.

            ¾  Senhores, vai chegar o dia do basta ao Getulio!  E esse dia chegará, quer nós queiramos ou não!  ¾  Depois de uma pausa calculada, dando tempo para cada um pensar um pouco, continua:  ¾ Os senhores souberam ontem do resultado da conversa que dia nove a delegação do Partido Democrático teve no Rio de Janeiro com o Getulio. A delegação saiu de São Paulo composta pelo Joaquim Sampaio Vidal, Vicente Rao, Waldemar Ferreira e Paulo Moraes Barros. No Rio juntou-se a eles o Paulo Nogueira Filho. O plano era tratar logo de solucionar o CASO PAULISTA junto ao Getulio: queremos já um interventor civil e paulista, enquanto não são realizadas as eleições. O Partido Democrático sempre apoiou o Getulio, mas a arrogância dos militares está fazendo o Partido rever esse apoio. O Partido não aceita mais que os militares reunidos nos Campos Elíseos decidam manter como interventor o coronel Manoel Rabello. E não aceita o poder,  de decidir isso,  que o capitão João Alberto se dá.  O Partido Democrático, então - notem bem Senhores - foi  EXIGIR  do Getulio uma mudança nessa situação, caso contrário o Partido deixaria de apoiá-lo e se uniria a todas as alas políticas que fazem oposição ao Governo Federal. O Getulio, Senhores, não quis receber a delegação. Ela foi recebida pelo ministro da Justiça. E este, junto com um representante da delegação - foi escolhido o Paulo Moraes Barros - avistaram-se com o Getulio. E todos vocês sabem do resultado: NADA FOI CONSEGUIDO!  Voltaram todos de mãos abanando para São Paulo.  Por aí os  Senhores sentem o que iremos obter do Getulio: NADA!  O rompimento do Partido Democrático com o Getulio é um sinal grave de alerta para todos nós, Senhores!   VAI HAVER LUTA !  E LUTA ARMADA!  ¾  Antunes destaca bem com a mudança do tom de voz:   ¾  Nós não vamos aguentar essa situação por muito tempo. E temos que nos preparar  rapidamente para a luta. É aí que nós temos que unir nossas forças e poder...

            Antunes faz uma pausa, puxa uma baforada do seu Yolanda que quase estava se apagando no cinzeiro de cristal  à  sua frente, solta a fumaça para cima e continua:

            ¾ ...nós temos que unir nossas forças, Senhores. E temos dois caminhos, ambos necessários: Primeiro, em nossas indústrias começarmos a fabricar fuzis. Os desenhos do fuzil 1908 já estão à disposição. Mas fabricar escondidos em salas fechadas, para manter o sigilo. Temos que escolher bem os operários que irão fabricá-los. E capacetes e outros  equipamentos, cujos desenhos e plantas os senhores receberão ao saírem desta sala, junto com os desenhos do fuzil.  O segundo caminho, essencial, é mandarmos vir do exterior, especialmente, as munições para esses fuzis e outros equipamentos. Pelos cálculos que um amigo especialista fez teremos que encomendar no mínimo  8  milhões de tiros de fuzil para podermos iniciar a luta, pois não temos ainda  condições de fabricar por aqui. A única fábrica de pólvora é a de Piquete, no Vale do Paraíba e é controlada pelo Governo Federal. E vamos ter que pagar em ouro. Os fornecedores já contatados no exterior, só aceitam ouro em barras como pagamento. A encomenda já foi feita e estará a caminho em 40 dias: 8 milhões de tiros e mais alguns apetrechos. E, agora, Senhores, é a hora de cada um dar uma parte do seu ouro. É preferível perdermos um pouco do que temos do que perdermos tudo...

            Antunes senta-se e a lista com as adesões começa a circular. Ele faz questão de iniciar com seu nome e 10 barras de  meio quilo. Antunes quer forçar os outros a uma boa contribuição. A lista, depois de algum tempo, volta ao Antunes. Como cada um dos presentes deu 10 barras, há na lista 90 barras de ouro doadas. 45 quilos de ouro! Ele quer e precisa de 40 barras, para iniciar, pois esse era o preço dos vendedores de armas e munições, para a encomenda feita. O restante das barras irá para o fundo especial para mais compras de outros materiais e pagamento das empresas que os  fabricarem.

            Antunes levanta-se.  ¾  Senhores, vejo que todos nós estamos unidos na causa por São Paulo e, por que não dizer, na defesa de nossos interesses. E vamos precisar  de todo esse ouro, e talvez mais algum, para podermos armar o povo na hora que  desejarmos.   Armas,  munições,  uniformes  e  outros apetrechos, Senhores, não custam barato! Iremos pagar os fornecedores estrangeiros com 40 barras de ouro; as restantes serão para pagar as despesas de nossas próprias fábricas na compra de matérias primas para fabricarmos o que pudermos, além de mantermos alimentado  o nosso futuro exército de paulistas. Acho que serão necessárias umas 150 barras para podermos realizar a nossa luta e vencermos. Ainda faltam 60 barras para completar as 150 planejadas. Alguns dos senhores tinham a responsabilidade de angariar doações com outros amigos que não iam poder comparecer hoje. O que conseguiram?

            Um industrial do ramo têxtil, Gert Herbert, sentado ao canto da mesa, levanta-se e com um largo sorriso dado por baixo do bigode grisalho, fala  em um português com leve sotaque alemão:

            ¾  Antes da reunião levantei os dados dos que ficaram com essa missão. Temos exatos  59  barras e eu coloco mais uma barra, completando as 60 de que precisamos. E continuamos a manter contato com outros industriais  que querem contribuir para a causa paulista.

            ¾  O meu amigo Gert está de parabéns pela sua grande generosidade. Tudo pela causa e pelos nossos interesses! ¾  completa Antunes.  E  continua:

             ¾  Senhores, na antessala, está o  Dr. Ruy, meu  sobrinho e homem de confiança. Ao saírem desta sala peguem com ele os desenhos do fuzil e dos outros equipamentos e acertem com ele  o horário, hoje e amanhã, e o local para mandarmos buscar as  barras de ouro. E, logo que puderem, me avisem o que irão produzir para acertarmos as despesas da compra  dos materiais para a fabricação. Temos que agilizar a reunião desse material. E, para informação de todos, já que todos aqui somos de confiança, as munições e outros equipamentos entrarão pelo porto de Mambucaba, em Angra dos Reis, já que no porto de Santos há  muitos olheiros do Getulio. E, de lá chegarão até São Paulo, por terra. Fiquem sossegados que o caminho escolhido é seguro e já tenho  tudo  organizado...

 

      Os dois homens no Restaurante do Pissanga ainda se lembravam da seriedade com que seu velho tio Antunes lhes falara e da missão que os encarregara. E suam frio só de lembrar das 40 barras de ouro que estão transportando no carro e  da maleta de couro cheia de dinheiro.

            Eunildo e seu irmão Celio se entreolham. Chamam o seu Pissanga e pedem a conta. Estão com  pressa de continuar a viagem. Pelos cálculos, pela nova  rodovia Rio de Janeiro - São Paulo, levarão de Lorena a Bananal,  o destino, sem correr muito, umas 5 horas. Será a última etapa dos 314 km que separam São Paulo de Bananal.  Pagam a conta e saem apressados, entrando a seguir no Chevrolet 124. Desta vez Celio senta-se ao volante. Conhece  melhor os trechos  cheio de curvas da estrada que vão  enfrentar. Descem a Rua Alegre até a primeira esquina.

            Antes de virarem a esquina, Eunildo repara  em um  homem, que no alto de uma escada, substitui a placa com o nome da rua. Eunildo lê: Rua Manoel Prudente e fica  a matutar como é estranho o costume de uma cidade homenagear algum emérito cidadão depois do seu falecimento. E, pensando nisso, ri sozinho ao lembrar-se de outro costume que observou  nesta cidade ao entrar no restaurante: na parede estava afixado uma folha impressa, com uma tarja preta em um dos cantos, anunciando o falecimento de mais um cidadão...

            O Chevrolet 124  passa  pelo Largo Imperial, bonito jardim público, todo cercado de grades, com portões nos  seus quatro cantos,  com palmeiras imperiais, plantadas por D.Pedro I quando em uma de suas passagens por Lorena, plantadas de tal modo que forma o brasão imperial, se pudessem ser vistas do alto. D.Pedro gostava de deixar sua marca pessoal  por onde passava...

 

              Logo após o Largo Imperial, o Chevrolet  toma  a Rua do Comércio, rua cheia de  armazéns, ferreiros, lojas e bares, rua que vem  da  única ponte que cruza o ribeirão, localizada na rua  Direita, também chamada de Rua das Palmeiras Imperiais, com suas 30 palmeiras de cada lado da rua, como se fossem cavaleiros com lanças homenageando  todos os tropeiros  e viajantes que entram na cidade por essa  rua - estrada, passagem obrigatória  para os que viajam a cavalo ou de carro. Há  tantas palmeiras imperiais que a cidade  é  conhecida como a cidade das palmeiras imperiais...

      Depois da fundação da cidade de São Paulo, em 1554,  muitos homens lançam-se  para os sertões paulistas e outras terras, em especial a terra dos Cataguás, conhecida como Minas Gerais, em busca de ouro e de aventura. Homens audaciosos. O Vale do Paraíba, caminho natural para se chegar às Minas Gerais, recebeu muitos desses aventureiros. E, logo começam a surgir pequenos lugarejos, espalhados pelo Vale, à beira do rio Paraíba, para apoio às expedições.

                A cidade de Lorena nasce assim, a 182 quilômetros de São Paulo, como um  lugar onde os bandeirantes e viajantes fazem a travessia do rio para subir a serra em direção às Minas Gerais. O lugar fica conhecido como Porto Guaypacaré, que na língua Tupi dos índios que habitam  a região, significa  Braço ou seio da Lagoa Torta,  pois o porto fica em uma parte calma do rio,  parecida com um cotovelo, tendo uma parte de várzea ao lado do rio, que nas cheias, forma uma lagoa.

        Os primeiros a se fixarem no local o fizeram pelo fim do século XVII e fizeram plantações no local para abastecer os viajantes. A plantação fez o local ser conhecido como as Roças de Bento Rodrigues Caldeira, o  mais abastado dos que fizeram as plantações. De pequeno vilarejo incrustado nos sertões de Guaratinguetá, passa  a ser Vila da terra de Bento Rodrigues Caldeira. Com o levantamento de uma capela em 1705 dedicada a Nossa Senhora da Piedade, mais tarde, em 1718, passa  a ser Freguesia de N.Sra. da Piedade, mas todos, inclusive os índios chamam o local de Guaypacaré. Mas os viajantes não sabem  pronunciar direito esse nome.  Com o tempo,  por corruptela, fica  conhecido como Hepacaré, em língua Tupi significando Lugar  das Goiabeiras. Fica  tão conhecido o lugarejo  pelos viajantes que o Capitão-General que ocupa o posto de Governador de São Paulo, Bernardo José de Lorena,  mais tarde elevado a Conde de Sarzedas, baixa  um Decreto em l4 de Novembro de 1788 elevando  o lugarejo à Vila, dando-lhe o nome de Lorena. E a vila é  oficializada como cidade em 24 de abril de 1856  e dez anos depois, no dia 20 de abril de 1866 a cidade torna-se Comarca. Em 1877, com a inauguração da Estrada de Ferro Central do Brasil, passando  pela cidade de Lorena, há  um maior desenvolvimento das culturas cafeeira e canavieira, culturas típicas da época, utilizando  escravos nas fazendas pertencentes a grandes proprietários, situação que começou o seu declínio lento a partir do fim da escravidão em 1888.

 

 Chevrolet 124  sobe  a Rua do Comércio. Passa  em frente  à Igreja Basílica de S.Benedito, com suas duas torres pontudas. Eunildo não deixa  de fazer o sinal da cruz, ao passar por ela, religioso e supersticioso que é...  Ao final da rua, o automóvel contorna  a grande e secular figueira existente  no alto de uma colina, último marco existente na saída da cidade. Em seguida toma  o rumo do  Caminho Novo,  rodovia  de terra e pedrinhas. Eunildo, começa  a cochilar de olhos fechados, passando pela sua mente os acontecimentos de que participou  em Bananal, no dia 28 de maio de 1928... Ele havia chegado a Bananal, última cidade paulista  em direção ao Rio de Janeiro, uns dias antes, a convite da família Alves de Algarve, junto com o seu tio Antunes...

     

    

           O sobrado dos Alves de Algarve é  de impressionar a quem o vê  pela  primeira vez.  É  a terceira vez  que se hospeda  nesse sobrado, localizado no centro da cidade, bem no meio da Rua Prudente de Moraes, paralela à Rua Comendador Manoel de Aguiar, rua principal da cidade, chamada por todos de Rua do Comércio.

         O sobrado construído em velho estilo português, situa-se no meio de uma chácara, com a extensão de um longo quarteirão. À sua entrada, um muro baixo, com grades na parte de cima, toda artisticamente fundida. Ao meio do terreno, um grande portão de ferro fundido, com duas letras A,  entrelaçadas dentro de um círculo, inicia o caminho que leva ao casarão.  No meio do enorme e florido jardim, cultivado com capricho, o caminho forrado por pequenas pedras abre-se em dois, tendo ao centro um repuxo jorrando água  sobre um tanque redondo de azulejos azuis, contendo peixinhos de um vivo vermelho dourado e algumas plantas aquáticas. O caminho volta a se unir,  e alguns metros à frente, desemboca  na escada   que dá  acesso ao alpendre de entrada no 2º piso, escada de grades  enfeitadas com buquês de flores fundidas no ferro..

            O enorme sobrado tem, na  sua frente, 12 janelas em seus dois andares.  Por dentro, o casarão possui,  no  2º piso, 3 salas, 2 salões, 10 quartos e 2 alcovas, além de cozinha e de 3 banheiros. E no térreo, acomodações para os empregados. Ao lembrar das alcovas, Eunildo parou para refletir a estranheza destes cômodos sem janelas, tendo só porta de entrada, sem ventilação e iluminação direta e natural.   ¾  Como  deve  ser  difícil  dormir  com uma mulher num lugar como este  ¾  pensou ele.  E visualizou mentalmente os quartos, amplos, com camas tão altas que uma criança de 10 anos teria que dar um pulinho para subir nelas. E todas com os quatro pés como se fossem pilastras, segurando no alto  cortinados brancos que desciam pelos quatro  lados, protegendo seus ocupantes dos pernilongos. Ao pensar em crianças, lembrou-se do pomar que existe  atrás e do lado esquerdo do casarão,  até o terreno chegar ao rio Bananal. Maçãs, pêras, jabuticabas, abacates, uvas, bananas, laranjas, todas conviviam  bem no pomar e é a alegria da garotada. Nunca vira tantas  frutas juntas!  É só entrar no pomar  e pegar a fruta no pé, saboreando-a ali mesmo. E, no pomar, sempre se encontravam os moleques das redondezas que aventuravam entrar lá para pegar frutas. E é  realmente uma aventura pois é  constante a dona da casa, dona Nimpha, com seu gênio terrível, correr atrás dos meninos com uma vara de marmelo a estalar em suas pernas...

            Eunildo sorri por baixo do vasto bigode preto ao lembrar-se  dos três dias divertidos, com banhos no rio Bananal. Como foi  gostoso pular dos galhos  das árvores no Poço da Pedra ou no outro poço, distante uns 300 metros deste, o Poço dos Tocos. No outro dia, junto com os amigos que tinha feito na cidade e algumas moçoilas, tinham feito um pic-nic à Cachoeira da Barra, no rio Formoso e à tarde tinham ido tomar outro banho na Cachoeira do Gordo, no rio Barreiro.  Eunildo lembrou-se até da ida ao rio da Paca,  munidos de pás e bateias, a leste de Bananal, onde seus amigos da cidade diziam existir ouro em seu leito arenoso. Não achou nada, nem uma pepita, mas valeu a emoção de sentir-se um garimpeiro como os velhos bandeirantes que se  aventuravam pelo sertão em busca de ouro. Não teve sorte em encontrar ouro, mas seus amigos também não. Voltaram à cidade com os bolsos vazios. ¾ Acho que é mais uma das lendas que os velhos moradores contam em Bananal. Será que alguém já achou alguma pepita de ouro no rio da Paca? Se achou ficou quietinho e não contou nada para ninguém...

      O Chevrolet 124 sacoleja  pela rodovia de terra batida, com cascalho, em direção à Cachoeira Paulista e logo após esta cidade, em uma curva fechada, toma  a direção da Serra da Bocaina, no maciço da Serra do Mar. Até chegar a Bananal haverá  muitas curvas e muito chão a percorrer. Mas a paisagem montanhosa agrada-o  sobremaneira. Eunildo não se incomoda  nem com os sacolejos mais fortes que de vez em quando um buraco na estrada provocava no Chevrolet 124. Os sacolejos embalam seus pensamentos e lembranças...

 

            ... Lembranças do dia 28 de maio de 1928 quando foi inaugurada a rodovia Rio de Janeiro - São Paulo, o antigo  Caminho do Imperador (a partir de agosto de 1822), agora uma estrada melhorada, de terra batida com cascalho, chamada agora de Caminho Novo.  Por essa estrada, em 1822, a cavalo, do Rio de Janeiro até Lorena, percorria-se em  14 dias e de Lorena a São Paulo, em 6 dias. E o primeiro carro a passar por Bananal no  Caminho Novo, foi em 1908, dirigido por um conde francês,  Lesdain.

 

            ¾ Grande festa aquela  ¾  Eunildo começa  a lembrar  ¾  uma das maiores festas que a cidade de Bananal presenciou e participou. Todo mundo com sua melhor roupa, a usada nos domingos de festa. As mulheres com seus vestidos  até a altura dos joelhos, meias brancas 3/4 e sapatos com uma grande fivela quadrada e dourada, além de o costumeiro e charmoso chapéu com fita na cabeça, colocado na cabeça até à altura dos olhos. Só se diferenciavam umas das outras pelo corte e comprimento dos vestidos, a cor dos tecidos e dos chapéus, já que todas com cintos apertando e delineando bem a cintura, como é a moda. Ah! e a bolsa pendurada no ombro direito ou segura por uma das mãos.  E os homens,  elegantes em seus ternos pretos ou cinzas, com gravatas em cima das camisas de linho branco, com um chapéu da mesma cor do terno, tendo uma fita escura circundando toda a base do chapéu, junto à aba, ou o tradicional chapéu de palhinha clara com a fita escura.  Até os guris estavam  em suas melhores roupas, meias soquetes, calça curta até os joelhos e um paletó. E alguns com a gravatinha de duas pontas. E. na cabeça, um gorro caído para a frente, cobrindo a testa. E as donzelas, com seus vestidos rodados, a maioria na cor branca, cor que acentuava a pureza de seus corpos, com fitas cor de rosa claro à cintura, meias e sapatos brancos, além de um chapéu na mesma cor do vestido.

            Todo mundo na sua melhor aparência para presenciar a passagem do presidente da República, Dr. Washington Luiz - cujo lema era  Governar é abrir estradas - e sua enorme comitiva de gente importante. Os notáveis da Primeira República ou República Velha, como diziam as más línguas, estavam presentes:  o vice-presidente Melo Viana, o presidente do Senado Dr. Dino Bueno, o presidente da Câmara dos Deputados Dr. Aguiar Whitaker, o presidente do Tribunal de Justiça Dr. Luiz Aires...

            Diziam presentes, também, autoridades dos Estados de  São Paulo e do Rio de Janeiro: Dr. Júlio Prestes, Governador do Estado de São Paulo; Manoel Duarte, Governador do Estado do Rio de Janeiro; Dr. Fábio Barreto, Secretário do Interior; Dr. Mário Rolim Teles, Secretário da Fazenda; Dr. Sales Júnior, Secretário da Justiça; Dr. Fernando Costa, Secretário da Agricultura; Dr. Oliveira Barros, Secretário da Viação e tantas outras autoridades civis... E, não faltaram as autoridades militares:  General Hastinfilo de Moura, comandante da 2º Região Militar;  Coronel Pedro Dias de Campos, comandante da  Força  Pública  de  São Paulo. Além deles,  lá estavam,  também, dizendo presente, autoridades religiosas. E somando-se a eles, estudantes da cidade, no seu melhor uniforme. Ah! sim, e o povo. Todo mundo vibrando de alegria pela festa de inauguração da nova rodovia.

            A festa começou nas divisas do Estado do Rio com São Paulo - em Pouso Seco - onde aconteceu o cerimonial oficial de interligação dos dois Estados. Após a inauguração da placa comemorativa, todos se dirigiram a Bananal para a festa popular programada.  ¾  O povo ¾  exigira o presidente  ¾  tem que participar e se alegrar. ¾ E essa alegria era musicada: Bandas de músicas de várias cidades, Bananal, Resende e Barra Mansa tocavam a pleno pulmões e músculos seus instrumentos estridentes.

            Da multidão, aglomerada na Rua do Comércio, da ponte sobre o rio Bananal até o largo  da  Praça da Matriz,  subia um murmúrio constante. E mais alto subiam os rojões, estourando nas alturas. Todos mantinham um sorriso constante no rosto e os olhos se extasiavam com o movimento dantes nunca visto na cidade. Palmas eram freqüentes aos cavaleiros que desfilavam imponentes em pose marcial em seus uniformes de gala. O povo aplaudia alegre a passagem do pelotão de soldados em seus belos cavalos do 1º Regimento de Cavalaria e aplaudia em seguida o desfilar cadenciado e marcante do outro pelotão do 1º Batalhão, da Força Pública de São Paulo. Das sacadas dos sobrados da Rua do Comércio, pétalas de rosas eram jogadas sobre os soldados. O grupo mais entusiasmado estava nas sacadas da Pharmacia Popular, no número 156, farmácia inaugurada em 1830, no Brasil Império, pelo francês Tourin Mormier que foi seu dono por 30 anos. Nas sacadas dos prédios da Praça outros grupos aplaudiam...

           E outro grupo mais animado estava nas sacadas do Hotel Luso-Brasileiro, no número 42, hotel que tinha na porta de entrada uma placa de metal onde se lia:

     ON PARLE FRANÇAIS,  ENGLISH SPOKEN HERE,

       MAN SPRICHT DEUTSCH,   SE HABLA ESPAÑOL,

    SE  PARLA  ITALIANO,  FALA-SE PORTUGUÊS.

          Na Praça da Matriz, em frente à igreja  do Senhor Bom Jesus do Livramento, quando o relógio da torre da esquerda marcava 11 horas e 15 minutos, o presidente e sua comitiva pararam para o cerimonial popular de inauguração: discursos e foguetes. ¾  Se o povo gosta de festa e barulho, então dê-lhe festa e barulho  ¾  era a opinião do presidente...

            A manhã estava terminando quando os numerosos carros com as autoridades, passando pelo Hotel Chinês, em frente à Santa Casa, entrando no Largo do Rosário, antigo local do cemitério dos índios Guaianis, deixaram Bananal em direção ao  Clube dos 200, para ao almoço.

            Eunildo, em seus devaneios mentais lembrou até da comida servida pelas inúmeras netas de mucamas, serviçais no Clube, descendentes dos escravos que trabalharam nos grandes cafezais da região. Sentiu água na boca ao lembrar dos doces  e biscoitos deliciosos que saboreou após o almoço, enquanto tomava um café brasileiro tipo exportação, feito somente das folhas do topo do pé de café. Isso sim é que é café!  Enquanto sentia na boca a lembrança dos petiscos saboreados naquele almoço, relembrou a continuação da viagem, acompanhando a comitiva presidencial, junto ao seu tio Antunes.

            Em todas as cidades da região - São José do Barreiro, Areias, Silveiras, Cachoeira Paulista - havia uma pequena parada para o povo homenagear o presidente e autoridades. E, sempre, havia discursos elogiosos ao presidente, pelos políticos de plantão em cada cidade que não poderiam deixar passar a oportunidade de se projetarem perante o povo...

            A noite já estava com a lua quase no alto do céu, quando a comitiva chegou a Lorena. Todos da comitiva do presidente participaram do banquete oferecido nos salões do Solar dos Azevedo, oferecido pelo Dr. Arnolfo de Azevedo e esposa. Estava presente D. Odila Rodrigues, sua irmã, chamada carinhosamente por todos de Dona Fiúta ou  Vovó  Fiúta, muito admirada pela dedicação esmerada que tinha à educação do povo.   O banquete terminou com o raiar do sol, quando a Comitiva do presidente  retornou para o Rio de Janeiro, a capital  federal e os paulistas para São Paulo.

            ¾  Grande festa!  Grande festa!  ¾  Eunildo encerra  as suas lembranças, despertado pela fala de seu irmão:

            ¾  Hei mano, vamos parar em Silveiras para comer alguma coisa?  ¾  indaga  Celio ao irmão, tirando-o de seus pensamentos.  ¾  Só se for um café bem forte, pois  ainda não fiz bem a digestão.  ¾  Está bem  ¾  conclui Celio enquanto  dirige  o Chevrolet 124 pela estrada de terra batida. Pelos seus cálculos, mais uns minutos e avistaria a torre da igreja de Silveiras, em cima de um morro, e em seguida a cidade à beira da estrada...

            Eunildo ajeita-se no banco do carro, aprumando a espinha pois já está  começando a sentir umas pontadas de dor nas costas devido à postura inadequada.  Puxa um cigarro enquanto  aprecia a nudez da modelo Yolanda estampada no maço.  ¾  Essa Yolanda numa cama deve levar um homem a desejá-la a noite inteira...¾ pensa ele.  Depois de saborear o sabor do cigarro perfumado em longas inspirações, sonhando acordado e excitado com  a imagem que fez fazendo amor  com a Yolanda,  nua na cama com ele, jogou o toco do cigarro pela janela, tendo o cuidado de jogá-lo na estrada de terra, para o toco não cair  no mato e iniciar algum incêndio.

            ¾ Essa cidade de Silveiras que vamos chegar daqui a pouco tem,  em sua história,  algumas coisas interessantes...

            Eunildo começa a contar  a seu irmão:

            ¾ ... li em algum lugar, na biblioteca do tio Antunes, que Silveiras surgiu lá por volta de 1778 quando esta estrada era ainda uma trilha usada por índios e aventureiros. Aqui perto tinha uma trilha, a Trilha dos Guaianás  e por ela vinha das Minas Gerais o ouro, através da Serra da Mantiqueira, passando pela Garganta do Embaú, que fica logo após Cachoeira Paulista. Daí seguia pelo Paraíba até o porto de Guaypacaré, hoje Lorena e, em seguida, até Guaratinguetá. Depois seguia por terra para Cunha, descendo a serra do Mar até Paraty. E dali até o Rio de Janeiro ia de navio, seguindo depois para Portugal. Como aconteciam muitos ataques de piratas roubando o ouro, entre Paraty e o Rio, resolveram abrir um caminho que fosse por terra até o Rio de Janeiro. E, foi assim que abriram este caminho, hoje uma estrada melhorada. E por este caminho passavam tropeiros e soldados que protegiam o ouro. E onde está Silveiras, era um local de parada e pouso para os que vinham da serra das Minas Gerais. Surgiu uma pequena capela rodeada de folhas de pita. Conta-se que uma mulher - uma tal de Maria Mota e seus filhos - rezavam o terço todas as tardes para N.Senhora da Conceição, isso nos primeiros tempos da Vila.

            ¾ Com a capelinha ¾  Eunildo continua a contar ¾  algumas casas de sapé foram sendo levantadas à sua volta. Com o passar dos anos, o lugarejo foi crescendo. Os primeiros moradores possuíam  sobrenomes  ainda  conhecidos  hoje:  os  Silveiras, os Guedes, os Castros, os Rodrigues, os Abreus, os Ferreiras, os Ramos.  Os irmãos Silveiras, com o movimento dos tropeiros no caminho, ergueram um grande rancho, com a ajuda dos seus escravos e índios e começaram a plantar alimentos. Nesse grande rancho os viajantes encontravam boa comida e pousada, além de um tanque natural no riacho ao lado para se refrescarem. E esses viajantes se referiam ao local como o Rancho dos Silveiras. Daí para o nome da cidade é fácil concluir...

            ¾  Sabe outra coisa interessante sobre Silveiras? ¾  indaga Eunildo.  Celio, concentrado na estrada e desviando-se dos inúmeros buracos, responde  com um balanço da cabeça. ¾  Dizem que em 1822 o Príncipe D.Pedro, em sua viagem histórica a São Paulo, a mesma que o levou a dar o famoso grito  de Independência ou Morte, ao lado do riacho Ipiranga em São Paulo, parou o seu cavalo em frente à casa de um tal de Antônio Pinto da Silveira, apeou-se, sentou em um canapé, esticou as pernas e tomou um copo de garapa coada. Esse Príncipe almoçou em Silveiras, foi jantar em Cachoeira Paulista e passou a noite em Lorena. Ao entrar em Lorena ele fez um pequeno descanso embaixo de uma frondosa figueira, a mesma que circundamos ao sair da cidade hoje. E, nesse descanso, chegou a gravar suas iniciais no tronco daquela árvore. Sempre deixando a sua marca por onde passava...

            ¾  Esse Príncipe deixava suas marcas em todo lugar, não? ¾  reage  Celio, saindo do seu mutismo.

            ¾  Realmente, mas ele preferia deixar suas marcas nas mulheres...

            Eunildo e Celio riem. E  Eunildo continua a descrição das curiosidades de Silveiras, cuja torre da igreja já era vista ao longe:

            ¾  Outra coisa que se conta sobre Silveiras é que passou por aqui um engenheiro alemão quando ela ainda era uma vila e traçou as ruas da  cidade que se formava. Isso é conjetura, mas como explicar que as três praças da cidade têm as mesmas medidas, formando retângulos exatamente iguais? E como explicar que as quatro ruas transversais são exatamente do mesmo comprimento e colocadas geometricamente de tal modo que dão  a impressão de que foram traçadas antes no papel?

            O Chevrolet 124  atravessa pelo largo do Chafariz, logo após ter passado pela Santa Casa de Misericórdia, quando Celio comenta:

            ¾  Mas quem veio após esse alemão não gostava de coisas retas, pois as duas ruas grandes, se não me engano, são tortas e desalinhadas.

            ¾  Você tem razão, irmão. Duas ruas são tortas enquanto as outras são alinhadíssimas. Entra ali, Celio, naquela rua. Acho que tem um lugar lá na frente para tomarmos um gostoso café caipira. ¾ O Chevrolet 124 entra  na rua da Tijuca e um quarteirão à frente, logo após passar pelo Salão de Bailes do Sodero, anunciado em vistosa placa, estaciona  em frente à Casa Abreu, um misto de casa de secos & molhados  e restaurante.

            A parada é  curta.  É  o tempo de apreciarem o sabor do puro café colhido na região, fervido na hora em fogão a lenha e adoçado com rapadura. Mas deu tempo de trocarem alguns olhares compridos e marotos com três bonitas moças que entraram na Casa Abreu. E Eunildo não deixou de observar que apesar de na cidade já haver luz elétrica produzida por usina, desde 1921, ainda se vendia e era muito usado na região ¾  segundo lhe contara o dono da casa depois que  ele perguntou ¾  o azeite para candeeiros, feito de mamona, fácil de plantar e colher.  Após o café, tomam o rumo da Rua da Palha, passam em frente ao campo de futebol dos Silveiras, onde uma placa de madeira anuncia : Fundado em 1921¾ , e rumam para o norte...

            Ao saírem de Silveiras, em direção a Bananal, Eunildo comenta:

            ¾ Nessas histórias que contam sobre Silveiras, há uma outra interessante. Aqui existe um bairro chamado Tijuca. Por volta de 1850 era muito movimentado pelos tropeiros viajantes, isso porque havia bons ranchos de pousada e alguns deles tinham  palco com dançarinas permanentes.

            ¾ Esses ranchos com dançarinas em 1850 podem ter sido os verdadeiros precursores dos cabarés que temos em São Paulo  ¾  comenta  Celio, desviando-se de uma tropa  de burros carregando grandes balaios cheios de  espigas de milho, pendurados no lombo dos animais, um de cada lado.

             ¾  E, sabe da  maior, Celio?  Silveiras, por volta de 1880, na época do apogeu da aristocracia do café que existiu nesta região, tinha um teatro em forma de ferradura, com 300 lugares na plateia. Conta-se que quando a princesa Isabel visitou a cidade, estava se apresentando no teatro uma Companhia Teatral Francesa. E os espetáculos eram aos sábados e domingos, sempre com a casa cheia.

            ¾ Esta cidade deve ter bons bailes dominicais, pois vi duas placas anunciando  Chá dançante no domingo, uma no Salão do Sodero e outra no Salão dos Rodrigues.

            Eunildo não responde  pois tragava a fumaça do cigarro Yolanda que segurava com a mão esquerda e se distraía vendo a paisagem montanhosa da região, enquanto torcia a ponta do bigode com a mão direita e entrava em  devaneios...

            ... alguma coisa o  tinha feito lembrar-se da desilusão que teve com a polaca Julika com quem saiu algumas vezes em São Paulo e estava se apegando afetivamente. A raiva  atingiu seus pensamentos: ¾  Que mulher rameira! Só tem  pose e estampa, com seu corpo bonito de mulher jovem de 23 anos, o que me  havia atraído, além  de algo misterioso por ser estrangeira, diferente das brasileiras que conheço...  Demorei para descobrir que além do verniz superficial de uma pseudo-cultura mais desenvolvida do que a brasileira, ela não tinha nada  como pessoa humana, completamente vazia...   E  a danada era  tão vazia,  interesseira e leviana, que na última discussão me jogou na cara que o que ela queria mesmo era um homem rico e como não sou rico estava me jogando fora... ¾  E Eunildo encerrou seus devaneios e sua raiva:  ¾  foi ótimo eu ter me desiludido, pois a desilusão  me fez abrir os olhos saindo da ilusão que estava com ela...fazendo morrer de vez o sentimento que  estava sentindo...

            Quando saiam de Silveiras, Eunildo deixa  o seu  mutismo  e devaneios e  volta  a falar:

            ¾  Aqui à esquerda de Silveiras existe outra cidade, chamada Queluz, do lado direito do rio Paraíba, com sua bonita igreja no alto do morro...

 

           A igreja de Queluz tem uma imagem do padroeiro da cidade,  São João Batista,  trazida em 1870 direto de Portugal. O interessante, Celio, é que essa cidade primitivamente, por volta de 1800, era uma aldeia de índios Puris. O então governador de São Paulo para tentar  civilizar  esses índios, criou ali uma aldeia  que chegou a ser vila em 1842 e município em 1876.

            ¾ Outra curiosidade é que o nome Queluz  é o nome do solar onde nasceu D.Pedro I, por isso o governador fez uma discreta homenagem à família real...  E à direita, no meio  da serra,  está a cidade de Cunha. A próxima cidadezinha que vamos chegar daqui uns 18 km,  Celio, é Areias.  

            ¾  Essa cidade de Areias  surgiu logo após a construção deste caminho. Areias  já foi grande produtor de café,  sendo em 1854 o segundo maior produtor de café de São Paulo, depois de Bananal. 

E antes de Bananal, Celio, vamos encontrar São José do Barreiro. Essa cidadezinha, na época do apogeu do café, tinha belas residências dos senhores do café que ainda hoje podemos apreciar...

 

            Trocando de tempos em tempos, cada um dirigindo um pouco, chegam ao destino, nesse dia.  A noite já vinha caindo no pequeno vale no alto da serra, entre Formoso e São José do Barreiro, onde está localizado o hotel  e  restaurante   Clube  dos  200, quando o  Chevrolet  124 entra resfolegando no estacionamento em forma de meio círculo.  Uma boa noite de sono os fará descansar da longa viagem. Após o jantar, o cansaço os fez dormir logo e não pensarem muito no conteúdo das duas caixas de metal, da maleta de couro e do envelope, escondidos no carro e o que teriam que fazer no dia seguinte, em Bananal...

 

 Capítulo  2  

      O Brasil, desde o Império, mantém  o equilíbrio no poder alternando a presidência entre os dois Estados de maior força: São Paulo e Minas  Gerais.  É o regime café com leite.  Os outros Estados, como o Rio Grande do Sul, Bahia e Pernambuco, contentam-se com a vice-presidência. Somente quando os Estados donos do poder não se entendem, a presidência é assumida por outro, como é o caso do paraibano Epitácio Pessoa, em 1919, presidente eleito entre o paulista Rodrigues Alves e o mineiro Artur Bernardes.

           Em 15 de Novembro de 1926 é eleito para presidente da República  Washington Luiz Pereira de Souza. Seu lema de governo era "Governar é abrir estradas" e realiza muito, pelo país, com seu Programa Rodoviário. Seu governo diminui a dívida externa e impõe moralidade administrativa. Apesar de suas realizações surgem muitas insatisfações com seu governo na área militar e política, em especial dos Governadores Getulio Vargas, do Rio Grande do Sul, Antônio Carlos de Minas Gerais e de João Pessoa, Governador da Paraíba, apoiados pelas classes média e de outros setores da sociedade.

            Pelo rodízio da política café com leite é  agora a vez de Minas Gerais assumir a Presidência da República e o candidato é seu governador, Antônio Carlos.  Mas Washington Luiz muda as regras, escolhendo  como candidato o governador  de São Paulo, Júlio Prestes, porque quer com isso, garantir um sucessor que continue  suas ações e programas de governo, em especial na área econômica. O governo controla de tal modo as eleições que é  praticamente impossível vencer os seus candidatos.

            Antônio Carlos  não abre mão de Minas assumir a presidência: Se o próximo presidente não for mineiro, não o será, paulista!   Por isso, os enviados de Antônio Carlos ao Rio Grande propõem: o próximo presidente pode ser gaúcho, no caso, Getulio Vargas.  Está  lançada a candidatura a presidente de Getulio Vargas, sendo seu vice, João Pessoa, da Paraíba. Com isso, aumenta a confrontação política  com o presidente Washington  Luiz.  A situação política é agravada  pela situação socioeconômica do país , reflexo da queda da economia mundial em outubro de 1929, afetando todos os setores econômicos do país, de modo catastrófico: em dezembro há  400.000 desempregados na cidade de São Paulo e 2 milhões no país.

            Está  chegando ao fim, com essa crise, o sistema socioeconômico cujo  alicerce é  a monocultura do café. O café é  o principal  produto de exportação do país, representando 60% das exportações, com 1 bilhão e 550 milhões de pés de café plantados. O Brasil controla  metade do mercado de café no mundo. Desde o Império os barões - ou coronéis -  do café, paulistas e mineiros, uma elite agrária e econômica ocupam  os principais postos de comando do país - com seus filhos, genros ou netos - alternando-se no poder, mantidos pelo Partido Republicano. Em São Paulo, esse Partido domina sozinho o ambiente político. Os únicos setores que aceitam pessoas não oriundas das classes  dominantes são  o Exército e a Igreja.

E muitos dos barões do café já dominam indústrias porque investiram, além de outros recursos,  o dinheiro que durante a  Primeira Guerra, de 1914 a 1919, não puderam gastar viajando com a família para a Europa. E novos imigrantes empreendedores, de várias nacionalidades,  também  fazem surgir novas indústrias, pequenas e médias.  Florescem novas indústrias e o comércio é fortalecido. De 6.000 indústrias em 1914 passa-se para mais de 20.000 em 1929. E começa  a fortalecer-se, também, o espírito classista dos industriais.

         A industrialização do país, em especial de São Paulo, traz uma maior concentração urbana da população, progresso material e novos movimentos sociais e trabalhistas, com encontros e debates de ideias novas, emergentes, ajudados pelos novos jornais que são fundados.   Ideias novas como a jornada de 8 horas, já existentes em outros países,  o  que agita  o  operariado  que  trabalha   12  horas  diárias, inclusive 6 horas no domingo, e também, férias remuneradas.  Apesar desse progresso, há  desemprego, fazendo a classe média, em especial, diminuir o seu nível social, além de descontentamento na classe operária que junto com a classe média não veem mudanças acontecerem para melhorarem as suas vidas. Essa insatisfação provoca frequentes  movimentos sociais e trabalhistas, como as greves, violentamente reprimidas pela polícia.  A população anseia  por mudanças políticas, sociais e econômicas, mudanças que melhorem suas vidas.

           A crise mundial de 1929 faz o café  despencar em seu valor econômico e com essa queda,  diminuir o poder das classes até então dominantes no cenário nacional.  Novas classes surgem para assumir o poder, os militares, os industriais e a classe média, que querem fazer-se ouvir e participar  ativamente no que acontece no país.  Os problemas sociais e políticos se agravam e todos querem encontrar uma  saída: mudanças em tudo o que pode  ser mudado.  Mas Washington Luiz não faz as mudanças esperadas por todos, agindo com poder e rigidez, fazendo desencadear a Revolução de 1930.

            Em 1º de Março de 1930  são realizadas as eleições e Júlio Prestes obtém vitória com 1,1 milhão de votos, enquanto Getulio Vargas obtém  737.000 votos.  ¾ Houve fraude! ¾  foi a reação da Aliança Liberal. E o Governo, também, achou que houve fraude pois em São Paulo Getulio Vargas teve surpreendente votação e no Rio Grande do Sul  99% compareceram às urnas, votando maciçamente em Getulio Vargas.  O Congresso reconhece Júlio Prestes como o novo presidente eleito, aclamado em 22 de maio.

            Getulio Vargas, em 1º de julho, lança Manifesto denunciando a eleição e agredindo o novo presidente. E, para piorar, em 26 de julho João Pessoa é assassinado, por motivos pessoais, em uma confeitaria no Recife.  Os  motivos pessoais  logo são transformados em políticos e o morto transformado em vítima do governo. No Congresso, na capital federal, no Rio de Janeiro, o grito que se ouve  é:  ¾ Presidente da República, o que fizeste do Presidente da Paraíba? 

¾  O assassinato de João Pessoa mobiliza toda a oposição e faz detonar o movimento militar.  

      

 

             No dia 3 de outubro de 1930 explode o movimento contra o presidente Washington Luiz,  primeiramente no Rio Grande do Sul, seguido de  Minas Gerais, Pernambuco e Paraíba. Na maioria das cidades o povo aceita  o movimento como uma nova esperança para um novo tempo. No dia 12 em Ponta Grossa, Paraná, Getulio Vargas assume o comando militar dos revolucionários que, de trem, se dirigem para o Rio de Janeiro. Getulio Vargas com Estado-Maior chega em Curitiba, 20 outubro 1930. Tropas mandadas contra os batalhões revolucionários passam-se para o lado deles...

 

                Em 31 de outubro de 1930 a Junta Militar dos generais Augusto Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto e do almirante Isaias de Noronha, entrega o poder a Getulio Vargas que oficialmente é  empossado a 3 de novembro como presidente, em caráter provisório.

          As vozes contrárias a Getulio Vargas, que exigem sejam  determinados os limites de seu governo  provisório são silenciadas ou ignoradas. Getulio, desde o começo, mostra  que o movimento revolucionário que comandou era uma catástrofe para o país, pois incentiva os aventureiros audaciosos e, desse modo,  decepciona todos que para ele cooperaram com sadias intenções patrióticas. O decantado programa da Aliança Liberal fica como letra morta, após a vitória da sua pregação, pois as intenções são  desfiguradas...

         O poder, tradicionalmente nas mãos de paulistas e mineiros, é  agora ocupado por um gaúcho, pela força de decisão dos generais e pela força das tropas  que envergando o uniforme rebelde, com lenço vermelho e chapéu gaúcho fazem nascer  a República Nova. Ao assumir, Getúlio imediatamente suspende a Constituição de 1891, dissolve o Congresso Nacional e nomeia  interventores federais para substituir todos os governadores e assume,  por decreto,  poderes ilimitados de governo.  E valoriza  as Forças Armadas, em especial os  tenentes que o ajudaram na revolução de 3 de outubro...

 

    Morre  a República Velha e com ela o poder  do  Partido Republicano,  fazendo diminuir a força dos  seus correligionários, os perrepistas.  Os vitoriosos do Getulio são  chamados de tenentes e estes sabem, em São Paulo o que querem:  tirar do poder os  membros do PRP - Partido Republicano Paulista  que desde 1894 mandam no poder  no Estado. E conseguem isso fazendo mudanças nos altos escalões do Governo, censurando a imprensa, fazendo maior controle das ruas, evitando manifestações operárias, fazendo vigilância sobre Clubes e outras sociedades... Os olhos e ouvidos dos tenentes e dos vitoriosos de Getulio são os membros do Clube Três de Outubro e a Legião Revolucionária, recém-criados,  "policiando governo, povo, economia, ruas e quartéis da Força Pública. E fundam o PPP - Partido Popular Paulista para agrupar esse contingente  defensor de 1930. E nas gráficas do governo estadual imprimem o jornal  O Tempo, seu porta-voz. Nenhuma medida para reativar a vida econômica - com toda a sua riqueza, São Paulo arranje-se sozinho! Determinadas produções são limitadas para enfraquecer o poderio econômico do Estado".

         São Paulo passa a ser uma  terra conquistada pelos revolucionários de Getulio Vargas, representados por  Miguel Costa e João Alberto. O  general Miguel Costa é  colocado por Getulio  sobre todos as forças militares, criando acima do comando geral da Força Pública, uma Inspetoria e colocou em postos de comando, capitães e tenentes revolucionários do Exército. É um modo de minar as forças militares paulistas... E o pernambucano João Alberto em suas funções, de delegado militar, na realidade, é  o interventor político de Getulio em São Paulo, o que é  confirmado  em 25 de novembro quando o delegado é transformado em interventor...

                Em 25 de Janeiro de 1932, dia do aniversário da fundação de São Paulo, uma multidão comparece ao Largo da Sé, convocada pela Liga de Defesa Paulista, para manifestar sua vontade de libertação da terra paulista. A forte chuva que cai não dispersa  a multidão, que entre um orador e outro grita:     ¾  São Paulo para os paulistas.         

            Esse grande comício é  um aviso para o Getulio. O jornal carioca  Correio da Manhã  entende o recado e publica  em 26 de Janeiro:

“São Paulo esperou demasiadamente... Não há duas maneiras de encarar a situação paulista: ela é clara e tem a virtude de constituir um aviso, com a vantagem, a um tempo, da eloquência e da antecedência”.

            Mas , em São Paulo, os representantes de Getulio não compreendem o sentido da reação cívica do povo paulista. Convocado por Góes Monteiro, os tenentes reúnem-se nos Campos Elíseos para analisar a situação e concluem: São Paulo quer separar-se do Brasil. Góes Monteiro ordena ações para coibir isso.

           As nuvens da tempestade aumentam  sobre São Paulo...

 

 

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